Isso tudo é muito estranho, andei reparando que tudo está exatamente igual, as nuvens continuam a passar, o céu continua azul, as montanhas continuam altas, o mar continua salgado, a areia continua fina e solta, o sol continua quente e a noite continua escura. Tudo sempre igual, o rio continua correndo, e o lago parado, a água continua molhada, a terra continua marrom e a pedra continua dura. Tudo sempre igual, a grama continua verde e no outono as folhas continuam a cair, no inverno esfria e na primavera há flores, as ovelhas continuam dando lã, os cachorros continuam latindo, os gatos continuam miando, os bebês continuam chorando de fome, os mendigos continuam pedindo esmola e as árvores continuam crescendo e "TUDO" continua sendo "TUDO"! Mas apesar disso tudo, tudo está diferente, as nuvens não passam mais, o céu não é mais azul, as montanhas não são tão altas, o mar nem é tão salgado, a areia é grossa e pisada, o sol está mais frio e a noite ficou mais clara. Tudo está diferente, o rio não está mais correndo, o lago não fica mais parado, a água está secando, a terra está ficando branca e a pedra está amolecendo. Tudo está diferente, a grama está ficando marrom, e no outono nenhuma folha cai, no inverno faz calor e na primavera as flores morrem, as ovelhas estão eternamente peladas, os cachorros estão mudos, e os gatos piando, os bebês estão quietos, os mendigos ricos e as árvores estão raquíticas e "TUDO" não serve para "NADA"! Apesar disso tudo, "NADA" está igual ao que era diferente, e "TUDO" se diferencia quando continua igual!
"O VIVO CONTINUA MORRENDO DE AMORES PELO MORTO QUE ESTÁ VIVO EM SUA MENTE QUE SE MOVIMENTA PARALISADA. ESCUTANDO SONS QUE NÃO SAEM DE LUGAR NENHUM E SÃO DIRECIONADOS A ALGUM OUVIDO SURDO QUE AS ESCUTA E OBEDECE, NÃO FAZENDO O QUE ELAS MANDAM!"
Heitor Godau - 11/02/2005
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
O Louco e a Doutora
A vida te leva pra muitos lugares, doutora. Te traz sensações e sentimentos muito estranhos e diversos. Como agora, por exemplo, a vida te trouxe até esse hospital psiquiátrico, te trouxe até minha cela, e te apresentou a mim, doutora. Isso foi há 6 anos atrás. Todos as noites, durante esses 6 anos, você visitou minha cela pra saber se eu não ia me matar de madrugada e eu nunca falei. Alias, desde que eu estou aqui eu nunca abri minha boca pra falar com ninguém, mas agora você ta me ouvindo falar, doutora. E pela sua cor deve estar bem espantada.
Mas como eu estava dizendo, a vida faz isso com você, mas ela também pode te ignorar. Assim como me ignora e ignora você também, doutora. Você trabalha aqui por que não tem mais ninguém lá fora pra você. E eu vim me “hospedar” aqui, porque não quero ninguém lá de fora. Sabe, doutora, eu consigo ver a alma das pessoas, eu vejo a minha, vejo a sua e vejo a de todos que estão lá fora, eu escuto o que eles trazem bem no fundo da mente. E vai por mim, não é toda essa bondade que eles trazem por fora. É cruel, doutora, muito cruel. Suas verdadeiras vontades, seus verdadeiros prazeres aprisionados, tudo é muito cruel. O que me deixou louco, não foi ver dentro da minha alma, foi ver dentro da alma dos outros. Tem a garota que adoraria furar os olhos das pessoas no ônibus, tem a menininha perturbada que adoraria esfaquear o gato, tem o cara que sentiria prazer em torturar os outros e por aí vai, doutora. Eu já estou aqui há tanto tempo, que ninguém mais sabe como eu cheguei aqui, todos os funcionários que trabalhavam aqui quando eu cheguei já foram trocados. Faz tanto tempo, que nem eu mesmo lembro como cheguei aqui, não lembro nem do meu nascimento, mas eu sei que faz tempo. Não sei muito bem porque eu, nem como, nem de onde veio isso, mas eu estou vivo a muito mais tempo do que você imagina, doutora. Eu envelheço muito devagar, eu vi a segunda guerra mundial, vi a primeira, vi quando apareceram com a eletricidade, vi quando todos resolveram se lançar ao mar pela primeira vez, vi quando Roma ainda estava no auge do império e ve ela arder em chamas, na época de Roma eu ainda era um garoto. Quanto mais o tempo passa, mais devagar eu envelheço e não sei até onde isso vai chegar.
Acho que já chega de falar né, doutora. Pois bem, meça meu pulso, olhe nos meu olhos com sua lanterninha, cheque minha garganta como você sempre fez nos últimos 6 anos. A última vez que falei com alguém antes de hoje, já deve fazer uns 20 e tantos anos, ou mais...depois de viver tanto, eu já não consigo mais entender como o tempo passa. Bom, isso era tudo que eu tinha pra falar e não perca seu tempo esperando me ouvir falar de novo com você.
Heitor Godau – 13/11/2007
Mas como eu estava dizendo, a vida faz isso com você, mas ela também pode te ignorar. Assim como me ignora e ignora você também, doutora. Você trabalha aqui por que não tem mais ninguém lá fora pra você. E eu vim me “hospedar” aqui, porque não quero ninguém lá de fora. Sabe, doutora, eu consigo ver a alma das pessoas, eu vejo a minha, vejo a sua e vejo a de todos que estão lá fora, eu escuto o que eles trazem bem no fundo da mente. E vai por mim, não é toda essa bondade que eles trazem por fora. É cruel, doutora, muito cruel. Suas verdadeiras vontades, seus verdadeiros prazeres aprisionados, tudo é muito cruel. O que me deixou louco, não foi ver dentro da minha alma, foi ver dentro da alma dos outros. Tem a garota que adoraria furar os olhos das pessoas no ônibus, tem a menininha perturbada que adoraria esfaquear o gato, tem o cara que sentiria prazer em torturar os outros e por aí vai, doutora. Eu já estou aqui há tanto tempo, que ninguém mais sabe como eu cheguei aqui, todos os funcionários que trabalhavam aqui quando eu cheguei já foram trocados. Faz tanto tempo, que nem eu mesmo lembro como cheguei aqui, não lembro nem do meu nascimento, mas eu sei que faz tempo. Não sei muito bem porque eu, nem como, nem de onde veio isso, mas eu estou vivo a muito mais tempo do que você imagina, doutora. Eu envelheço muito devagar, eu vi a segunda guerra mundial, vi a primeira, vi quando apareceram com a eletricidade, vi quando todos resolveram se lançar ao mar pela primeira vez, vi quando Roma ainda estava no auge do império e ve ela arder em chamas, na época de Roma eu ainda era um garoto. Quanto mais o tempo passa, mais devagar eu envelheço e não sei até onde isso vai chegar.
Acho que já chega de falar né, doutora. Pois bem, meça meu pulso, olhe nos meu olhos com sua lanterninha, cheque minha garganta como você sempre fez nos últimos 6 anos. A última vez que falei com alguém antes de hoje, já deve fazer uns 20 e tantos anos, ou mais...depois de viver tanto, eu já não consigo mais entender como o tempo passa. Bom, isso era tudo que eu tinha pra falar e não perca seu tempo esperando me ouvir falar de novo com você.
Heitor Godau – 13/11/2007
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Pranto Fúnebre
Sinto sangue cheiro forte corpo fúnebre. Funésta alma calma embala a meia-noite. Triste e tarde toque do relógio espanta corvo de corpo morto. O tilintar do cristal na hora de cova morta acorda do torpor o senhor eterno. O mal ao qual renasce a face. Do bem a quem reage ao rugido rude do além. Sei quem vem e vou também. Rapaz capaz de ver logo atrás, o mogno caixão no corrego de gente descente. Gente que chora um pranto manso escorre do canto do olho que olha o olho que o olha. Canta um conto que conta um mantra. Gente santa que encanta enquanto anda. Minha alma vaia e meu corpo aplaude. Assim termina a história da humanidade que caminha na multidão sozinha.
Heitor Godau – 03/01/2007
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Hoje Não!
Hoje não tem História, nem Música e nem TV.
Hoje não tem Glória, nem pra Mim e nem pra Você.
Hoje não tem Festa, nem Comida e nem Canção.
Hoje não tem Reza, nem Amém e nem Oração.
Hoje não tem Luta, nem Vitória e nem Perder.
Hoje não tem Culpa, nem Memória e nem Prazer.
Hoje não tem Morte, nem Ferro e nem Riqueza.
Hoje não tem Sorte, nem Zero e nem Avareza.
Hoje não tem Pão, nem Vinho e nem Vinagre.
Hoje não tem Cão, nem Cruz e nem Milagre.
Hoje não tem Caderno, nem Tinta e nem Caneta.
Hoje não tem Afeto, nem no Homem e nem no Planeta.
Heitor Godau – 15/10/2007
Hoje não tem Glória, nem pra Mim e nem pra Você.
Hoje não tem Festa, nem Comida e nem Canção.
Hoje não tem Reza, nem Amém e nem Oração.
Hoje não tem Luta, nem Vitória e nem Perder.
Hoje não tem Culpa, nem Memória e nem Prazer.
Hoje não tem Morte, nem Ferro e nem Riqueza.
Hoje não tem Sorte, nem Zero e nem Avareza.
Hoje não tem Pão, nem Vinho e nem Vinagre.
Hoje não tem Cão, nem Cruz e nem Milagre.
Hoje não tem Caderno, nem Tinta e nem Caneta.
Hoje não tem Afeto, nem no Homem e nem no Planeta.
Heitor Godau – 15/10/2007
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Acordado!
Acordado! Olho-me no espelho e vejo isso, um rosto deformado e reformado pela mente, minha mente criada pela escola da ilusão, mente imaginária para um corpo virtual, virtualmente destruído. Olho-me no espelho, nos espelhos, pelos bares, banheiros. Meu olho que vê o olho que me vê. Mentiras, minha mente mente para o meu olho, meu olho olha meu rosto, não mais em espelhos. Desta vez meu rosto está em minhas mãos, um rosto de plástico. Um rosto para esconder meu rosto.
Acordado! Odeio sonhos, mais uma vez eu sonho que está tudo bem, que sou perfeito de novo. Mas é só um sonho, mais uma vez eu queria acordar morto. Cadê a música? Não devia estar tocando “Blues"? Mas não ouço "Blues", ouço apenas meus murmúrios e lamentos. Não ouço mais saxofones ou violões, apenas meu choro desafinado entra pelos meus ouvidos e vai atormentar minha mente de novo e de novo, toda noite, sempre segundos antes de eu dormir e segundos depois que eu me encontro...
Acordado!
Heitor Godau-9/07/2004
Acordado! Odeio sonhos, mais uma vez eu sonho que está tudo bem, que sou perfeito de novo. Mas é só um sonho, mais uma vez eu queria acordar morto. Cadê a música? Não devia estar tocando “Blues"? Mas não ouço "Blues", ouço apenas meus murmúrios e lamentos. Não ouço mais saxofones ou violões, apenas meu choro desafinado entra pelos meus ouvidos e vai atormentar minha mente de novo e de novo, toda noite, sempre segundos antes de eu dormir e segundos depois que eu me encontro...
Acordado!
Heitor Godau-9/07/2004
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Digestão Embriológica
Nascidos fetos redundantes,
De suas entranhas agonizantes.
Fetos feitos de sangue e mal,
Com iguais lembranças da massa visceral!
A parteira ao seu trabalho está de volta,
Tenta tirar o filho de dentro da mãe já morta.
E na agonia do ser ou não ser,
É feito o que se deve fazer!
Em sua mais fria ambição
É posto a infernal opção,
Do aborto mal ocorrido.
Em sua mais louca alucinação
Foi nascido como no fim da digestão,
Que agora não passa de embrião digerido!
Heitor Godau – 18/11/2003
De suas entranhas agonizantes.
Fetos feitos de sangue e mal,
Com iguais lembranças da massa visceral!
A parteira ao seu trabalho está de volta,
Tenta tirar o filho de dentro da mãe já morta.
E na agonia do ser ou não ser,
É feito o que se deve fazer!
Em sua mais fria ambição
É posto a infernal opção,
Do aborto mal ocorrido.
Em sua mais louca alucinação
Foi nascido como no fim da digestão,
Que agora não passa de embrião digerido!
Heitor Godau – 18/11/2003
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Seus olhos fitavam o velho cinema. A quanto tempo ela não olhava para ele?! Desde que seu pai morrera quando ela tinha treze anos, passou de família adotiva para família adotiva, não teve mais casa nem cinema, mudou de cidade, de vida, de paixões e de princípios. Mas agora, com vinte e cinco anos, em uma viagem de negócios foi parar na sua cidade natal, visitou seu bairro e olhava com carinho e saudade o cinema que a fizera sentir paixão quando era uma criança de cinco anos, que lhe proporcionara a melhor sensação de sua vida quando tinha dez anos e agora ela entrava como telespectadora pagante pela segunda vez, mas tudo era muito diferente. A mulher da bilheteria não era tão simpática quanto antes, ela caminhou pelo tapete até a catraca, mas faltava algo, o lanterninha apenas pegou o ingresso, destacou-o e nem a olhou no rosto. Ela assistiu ao musical e se pegou chorando. Era o mesmo cinema, o mesmo tapete, o mesmo cheiro de pipoca, a mesma cadeira...mas não havia mais seu pai, não havia suas mão grandes que a protegiam, não havia seus olhos que a acalmavam, seu sorriso que fazia ela crer que o mundo era apenas ela, ele e uma tela brilhante. A quinze anos atras esse fora o melhor momento entre todos que ela já teve ou terá um dia, mas quinze anos depois, ela sentia toda a tristeza, toda a saudade, toda a dor que ela aprisionara dentro dela desde os treze anos! E quando as luzes acenderam, ela continuou lá, chorando, quieta, até o lanterninha a expulsar do cinema para começar uma nova sessão.
Heitor Godau – 1/09/2008
Heitor Godau – 1/09/2008
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